A “vida precária” do Coringa não é passível de luto (?):
reflexões represontológicas acerca da obra cinematográfica “Joker” (2019) à luz da Sociologia e da Criminologia
Resumo
Este artigo analisa a construção representacional do personagem Coringa no filme Joker (2019), dirigido por Todd Phillips, à luz das perspectivas da Sociologia, da Criminologia e da Represontologia. Partindo dos conceitos de “vida precária” e “vida passível de luto”, formulados por Judith Butler, investigamos de que modo a trajetória de Arthur Fleck expressa processos de marginalização, invisibilização social e hierarquização da humanidade. Metodologicamente, a pesquisa caracteriza-se como qualitativa, com análise fílmica baseada em observação sistemática, fichamento de cenas e interpretação de falas e enquadramentos narrativos. Argumenta-se que, no universo ficcional de Gotham City, a existência do protagonista só adquire reconhecimento social quando associada à violência e à criminalidade, evidenciando a lógica segundo a qual vidas precarizadas tornam-se inteligíveis apenas quando representam ameaça à ordem estabelecida. A análise demonstra que a mídia e as narrativas audiovisuais desempenham papel central na construção simbólica do conflito, articulando discursos de exclusão, desumanização e visibilidade punitiva. Conclui-se que o filme opera como crítica às desigualdades estruturais, expondo como a precariedade social, a negligência estatal e a ruptura dos laços comunitários produzem sujeitos cuja humanidade é sistematicamente negada, reforçando a necessidade de compreender os conflitos contemporâneos como fenômenos comunicacionais, simbólicos e sociais.
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